Enriquecimento

Enriquecimento ambiental: Como podemos melhorar a vida dos animais em cativeiro.

Quando os animais são mantidos em cativeiro, é importante levar em consideração que essa condição apresenta limitações quando se compara a vida no ambiente natural.

Uma observação comum sobre isso é a de que os espaços para os animais são sempre pequenos quando comparamos cativeiro e vida livre. Se dúvidas, a limitação de espaço é uma realidade, pois de maneira geral, os animais transitam por grandes áreas quando estão em seu habitat natural. A partir dos dados de um estudo de monitoramento (Morato et al., 2016), os valores médios obtidos para a área de um macho de onça pintada do Cerrado, o Xangô, foram de 1268.6 km2, já para machos monitorados no bioma Pantanal, esse valor foi de 144.3 km2.. Só para termos uma ideia, a área total da fazenda onde fica o NEX é 2 km2 ou seja, mesmo que toda a área fosse destinada a um único indivíduo, ainda estaríamos longe de oferecer todo espaço que ele usa em natureza, então, concluímos que replicar em situações de cativeiro o espaço natural dos animais é impossível.

O que podemos fazer então?

Bem, precisamos começar conhecendo um pouco mais sobre as necessidades dos animais e assim podemos entender do que eles precisam. A área de um animal em vida livre precisa oferecer a ele os recursos de que necessita para sobreviver, assim, ao observar a diferença nos dados para biomas diferentes, já podemos imaginar que condições ambientais diferentes exigem diferentes comportamentos dos animais. Dessa forma, sabendo que não é possível oferecer aos animais a área física que podem ocupar na natureza, precisamos pensar nos demais recursos, a fim de prove-los aos animais. Uma vez que os recursos estão sendo oferecidos aos animais, é possível que os indivíduos tenham boa qualidade de vida, mesmo que em espaço reduzido, pois o que os leva a percorrerem tantas áreas em natureza é justamente a busca por esses recursos. Uma evidência a favor disso é o fato de que a área utilizada pelos animais é maior em regiões mais degradadas, o que indica que precisam procurar mais para encontrar os recursos.

É justamente aí, quando pensamos em oferecer os recursos que os animais buscam no ambiente que entra o enriquecimento ambiental. O enriquecimento ambiental pode ser definido como um conjunto de estratégias que busca oferecer estímulos para que os animais desempenhem seus comportamentos naturais, ou, que possam apresentar comportamentos mais semelhantes aos que naturalmente são observados nos animais em vida livre.

Mas… Por que é tão importante poder expressar comportamentos naturais? O comportamento dos animais é resultado de um processo evolutivo pelo qual todas as espécies passam e a partir do qual os seres vivos que apresentam as adaptações necessárias para se saírem bem na grande competição natural pelos recursos sobrevivem mais e deixam mais descendentes. Assim, os animais precisam dos comportamentos que aumentam a chance de sobrevivência, tais como como saber escolher um bom abrigo e conseguir procurar e capturar sua presa. Da mesma forma, os comportamentos reprodutivos são essenciais, pois é a partir deles que cada indivíduo tem a possibilidade de deixar seus descendentes, propagando seus genes e mantendo viva a população. Dessa forma, ao proporcionar aos animais em cativeiro os estímulos para que expressem seus comportamentos naturais, estamos possibilitando que experimentem melhores níveis de bem-estar, por estarem agindo de acordo com sua própria natureza, ou, de uma forma simplificada, fazendo o que foram “programados” para fazer.

Assim, o enriquecimento ambiental é uma forma de proporcionar esses estímulos, com objetivo final de melhorar a qualidade de vida dos animais, ou seja, proporcionar aos animais condições para que atinjam maiores níveis de bem-estar.

Estudos sobre o bem-estar de animais sob cuidados humanos tem sido realizados com o objetivo de entender melhor como nossas ações podem melhorar a vida de cada indivíduo mantido em cativeiro, bem como de que formas podemos avaliar os efeitos dessas ações sobre a qualidade de vida dos animais.

Podemos definir bem-estar animal como um estado experimentado por cada indivíduo, diante das situações por ele vivenciadas. Seja em condições naturais ou em cativeiro, o ambiente ao redor dos animais está em constante mudanças. A sobrevivência no ambiente natural por si só vai oferecer situações desafiantes e riscos. Diante dessas situações, existe um mecanismo essencial no organismo de todos os animais, que é justamente um “ajuste” de suas respostas fisiológicas que prepara o organismo para lidar com os desafios, conhecido como “fuga ou luta”, também podemos chamar essa resposta fisiológica de estresse. Conhecemos bem esse mecanismo, basta pensar em uma situação na qual você tenha experimentado a sensação de que o coração iria sair pela boca… na verdade seus batimentos cardíacos estavam acelerados para fornecer mais sangue para seus músculos, sua respiração ficou ofegante para aumentar a oxigenação dos seus músculos, sua pupila dilatou para que você pudesse receber mais informações do ambiente e então agir, fugindo ou lutando com seu predador. Na nossa vida, geralmente não há um predador prestes a nos devorar… mas a resposta fisiológica do nosso organismo ao risco, como o de um mau resultado em uma entrevista de emprego, é a mesma. De maneira geral, após essa resposta, uma vez que o risco é superado, o organismo reestabelece seu funcionamento e essas sensações passam. Da mesma forma, acontece com os animais. Não devemos, portanto, nos preocupar tanto com episódios isolados de estresse, pois eles fazem parte da vida. O que realmente nos importa é o balanço entre as situações que potencialmente são estressantes e as situações neutras ou positivas. Assim, devemos pensar no contexto geral da vida do animal, considerando todos os aspectos envolvidos, tais como: seu recinto e o que acontece no entorno do recinto, como é feito o manejo dos indivíduos, qual é a dieta, como é a qualidade da relação entre os animais e os humanos que realizam seus cuidados diários, e todos os demais fatores que podem impactar, direta ou indiretamente, na vida desses animais.

Tudo isso é importante para entendermos que o enriquecimento ambiental não deve ser pensado de forma isolada, como uma atividade esporádica, mas sim como o conjunto de todas essas estratégias adotadas no sentido de melhorar o bem-estar dos animais.

Uma vez entendido esse contexto, vamos conhecer um pouco sobre os tipos de enriquecimento ambiental, sabendo que essa categorização geralmente leva em conta o objetivo específico de determinada atividade, ou seja, o que exatamente essa atividade pretende estimular. No entanto, vamos perceber que na prática essas categorias podem se sobrepor, pois uma mesma atividade de enriquecimento pode conter um estímulo físico e também um sensorial, por exemplo.

Enriquecimento físico: Trata-se de alterações em estruturas físicas, incluindo desde a ambientação do recinto até itens que podem ser oferecidos de forma esporádica, como bolas por exemplo.

Enriquecimento alimentar: São alterações relacionadas à alimentação, podem ser no tipo de alimento oferecido, quantidade e principalmente na forma de apresentação ao animal. Por exemplo, o uso de vegetais recheados com carne, descrito por Knights (1995) é uma maneira de modificar o acesso ao alimento, proporcionando uma experiência diferente aos animais com baixo risco.

Enriquecimento sensorial: Considerando que a capacidade sensorial dos animais é diferente da nossa, buscar estímulos que atuem nessa capacidade é uma forma de modificar a experiência do animal. Podem ser usados odores, sons e texturas por exemplo.

Enriquecimento social: Nesse caso, o objetivo é estimular comportamentos sociais, ou seja, de interação. Pode incluir o uso de odores de outros animais, a visualização de outros indivíduos e até mesmo a aproximação de indivíduos diferentes para formação de pares ou grupos (no caso de espécies de comportamento gregário). Uma possibilidade é o uso de estratégias que favorecem a interação entre os indivíduos e que pode, em razão desse efeito, ser considerada uma estratégia social (como o uso de montes de feno para onças pintadas, por exemplo)

Enriquecimento cognitivo: São estratégias que exigem tempo para serem resolvidas pelos animais, como aparatos elaborados que exijam do animal movimentar partes da estrutura (como gavetas) até conseguir retirar alimento de dentro, por exemplo. O treinamento por meio do condicionamento operante pode ser considerado um tipo de enriquecimento cognitivo em alguns contextos.


Texto da bióloga voluntária no NEX desde 2013, Liane Cristina Ferez Garcia
Doutora em Ciências Animais e Mestre em Biologia Animal pela UNB.


Para saber mais sobre o assunto:

Autores citados no texto:

GARCIA, L.C.F. Bem-estar animal: enriquecimento ambiental e condicionamento. Curitiba: Appris, 2021.

KNIGHTS, E. Vegetarian enrichment for carnivores! The Shape Of Enrichment, v.1, n.3, p.3-5, 1995.

MORATO RG, STABACH JA, FLEMING CH, CALABRESE JM, De Paula RC, Ferraz KMPM, et al. Space Use and Movement of a Neotropical Top Predator: The Endangered Jaguar. PLoS ONE, v.11, n.12, p. 1-17, 2016.

Mais sobre comportamento animal:

ALCOCK, J. Comportamento Animal Uma abordagem evolutiva. 9. ed. Porto Alegre: Artmed, 2011.

AZEVEDO, C.S., BARÇANTE, L, TEIXEIRA, C.P. Comportamento animal: uma introdução aos métodos e à ecologia comportamental. Curitiba, Appris, 2018.

Del Claro, K Introdução à Ecologia Comportamental: um manual para o estudo do comportamento animal. Rio de Janeiro: Technical Books, 2010.

Mais sobre bem-estar e enriquecimento ambiental:

BROOM, D.M. Indicators of poor welfare. British Veterinary Journal, London, v.142, p.524-526, 1986.

BROOM, D.M e FRASER, A. Comportamento e bem-estar de animais. 4. ed. Barueri: Editora Manole, 2010.

BROOM, D.M.; MOLENTO, C.F.M.. Bem-Estar Animal: conceitos e questões relacionadas – revisão. Archives of Veterinary Science, v. 9, n. 2, p. 1-11, 2004.

VASCONCELLOS, A.S.; ADES, C.. Possible limits and advances of environmental enrichment for wild animals. Revista de Etologia, v. 11, n. 1, p. 37-45, 2012.

Young, R. J. Environmental enrichment for captive animals. Oxford: Blackwell Science, 2003.

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